De Forma Banal

Privado em minha casa, observo as gotas de chuva escorrendo pela janela. Do lado de fora dá para se ouvir as doces sinfonias da água caindo e escorrendo da calha para o chão; a razoável neblina ocultava as árvores não tão distantes de minha porta. Toda a casa estava trancada por fora e assustadoramente fria por dentro. Eu podia escutar choros abafados vindo das paredes, procurei por horas para saber de onde exatamente vinham e de quem eram aqueles gemidos.

            O cheiro de terra molhada aumentava e o frio me envolvia cada vez mais e mais, não importava quantos agasalhos eu usasse, nada acabava com aquele frio. De alguma forma, uma sensação de claustrofobia me deixava desconfortável e parecia que as paredes estavam se aproximando, deixando o espaço mais apertado. A minha cama tinha uma aparência confortável, mas na verdade era dura, sentia que haviam farpas espetando minhas costas.

            A chuva misturou-se com a neblina e criou um emaranhado de fantasmas que embaçavam minha janela.

No vidro estava escrito:

“Não mais, nunca mais”.

            No mesmo vidro o meu reflexo estava pálido, não me admirava, pois por dentro de meu corpo o sangue congelava nas veias, mas o que assolava o meu ser, era que os meus olhos estavam vazios e inexpressivos. Lembrei-me de uma página amarela onde estavam escritas as dúvidas e os maiores receios sobre o pôr do sol, algo a ver com a tal verdade e sobre um rebanho, não de animais, mas sim de humanos.

            Quanto mais o tempo passava, mais o chão ficava úmido, o ambiente frio e minha alma angustiada. Ouvi batidas de relógio e observei que era a décima terceira badalada, depois disso eram apenas batidas.

Na madeira.

              O chão rangia.

                         As cigarras choravam.

                                                   O teto sedia.

            A medida que a batida dos pregos seguiam o ritmo do meu coração, a claustrofobia me deixava ofegante e tonto, a minha vista parecia escurecer mesmo com os olhos abertos, quando a paisagem ao meu redor se apagou a única coisa que pude escutar era os choros acima de mim e a terra cobrindo meu caixão.

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