Umbral da Clareira

Me vi perdido em meio a um bosque infinito, onde uma direção qualquer levava a Lugar Nenhum. Aquilo não era sonho, porém não podia explicar a razão de minha certeza, eu apenas sabia. Minhas lembranças estavam vagas e por isso, o motivo de eu estar ali era desconhecido.

            Caminhando no eterno bosque, os meus passos largos ficavam mais pesados à medida que avançava. Os ventos gelados que pairavam por entre as árvores envolviam o meu corpo, causando-me assim, calafrios profundos que deixavam a minha alma cortante; aqueles ventos denunciavam que naquele triste bosque a morte reinava.

            Aos meus pés um solo marrom escuro, atrás de mim trevas apenas, às minhas laterais, fantasmas agourentos, sobre a minha cabeça um pouco de céu.

“O céu estava escuro, as nuvens negras eram o presságio de que chuvas torrenciais iriam lavar aquele chão imundo”.

            E quanto à minha frente? Bem, eu ainda não sabia.

            Caminhei muito, e as horas não passavam. Não era claro ou escuro, nem dia nem noite, era algo que eu não sabia o nome. O silêncio aterrador daquele lugar degradava a minha sanidade aos poucos e os arrependimentos de tempos passados assolavam-me.

            O motivo de prosseguir com minha caminhada era a esperança que havia dentro de meu ser. De momentos em momentos eu olhava para a aliança de ouro em meu dedo, e nesses momentos eu recordava de minha amada Beatrice, ela estava à minha espera. Oh que dia feliz! O dia em que conheci Beatrice, aquela cuja beleza Vênus invejou, e por sua bondade o céu quis reivindicar! Custe o que custar eu voltarei para ver Beatrice!

            O tempo já não existia, mas em determinado ponto, uma luz dourada vazou por entre as folhas das árvores, só então eu pude deduzir que o fim estava próximo. O silêncio foi rompido por um choro quase abafado, meu coração acelerou e eu corri o máximo que pude, mesmo sem saber para onde. Corri até chegar em uma área sem árvores, onde havia grama dançando ao vento; no centro desse lugar tinha uma mulher ajoelhada cuja silhueta era familiar. Gritei o seu nome, mas ela não olhou para trás. Corri em sua direção e ela fugiu bosque adentro onde desapareceu.

            O céu voltou a se fechar.

            Olhei a meu redor e me vi sozinho novamente. Lágrimas em forma de chuva caíam banhando o tapete esverdeado.

            Fui em direção aonde minha amada estava. Ouvi risos irônicos trazidos por algo desconhecido, que aumentavam à medida que me aproximava do centro da clareira, onde havia uma pedra e uma rosa. Aquilo me causou uma repulsa que não pude explicar no momento; os risos cessaram, ajoelhe-me, me pus a cavar e ali em meio à lama encontrei uma ossada humana. Meus olhos encheram-se de pavor e em uma súplica olhei para os céus e disse: — meu Deus porque não tivestes piedade? Sentindo uma culpa profunda, olhei para o indivíduo no sepulcro. Comecei a chorar, pois em uma das falanges na mão esquerda estava a MINHA aliança!

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