O Gado Cujo Feno Era o Couro

Era uma tarde sombria, fria, úmida e melancólica. As folhas das árvores murmuravam ao vento, e o vento as faziam dançar naquela sombria e melancólica tarde. O sol estava escondido, estava negando-se a mostrar seu brilho, e as nuvens azul marinho estavam ocultando aquela divina luz na tarde sombria e melancólica.

            O soturno ateliê refletia com maestria o caráter e o sufoco proporcionado por uma tarde vinda apenas de profundos pesadelos. A dama no quadro era desenhada e tingida com pigmentos blasfemos, que acrescida a uma camada brilhante de óleo, tentava lhe conferir falsa benevolência, e isso eu sabia que era uma formosa armadilha.

            Ao me lembrar de algumas das cores: azul ultramar, azul ftalocianina, preto, verde vessie, sombra queimada, cor de carne; cores que aqui nesse contexto que são completamente ultrajantes e deprimentes, onde apenas o branco que realçava as lágrimas da bela dama, era o que trazia um pouco de conforto a vista perturbada. Uma pena, e até um pecado, uma musa tão celestial assim sendo retratada de forma tão desafortunada, perdida ao infausto, e mesmo assim tão seria um pecado com certeza eu me enamorar à aquele modelo.

            Uma angústia imensa esmagava meu coração, um peso na consciência por ter feito algo errado. O choro contido em mim estava quase transbordando, mas meus olhos negavam-se a deixar que um orvalho sequer escorresse por minhas bochechas. O orgulho masculino falava mais alto.

            Para acabar com aqueles dias sombrios, a única coisa ao meu alcance era dormir. Sempre que caminhava para meu quarto eu sentia um passageiro conforto em saber que talvez aquela conjuntura chegaria ao fim. Mas, da verdade eu sabia: quando abrir os olhos novamente, o vazio voltaria ao coração. Todo dia eu morria e todo dia eu nascia, mas não como uma pessoa nova, e sim como alguém que estava condenado a viver aquele pesadelo para sempre.

            Ao chegar no quarto, vi no criado mudo o motivo de todas as minhas angústias. Não sei como o encontrei, não tenho recordações de quando, mas foi por causa daquelas palavras que minha vida desmoronou.

FELIZES SÃO OS LEIGOS POR NADA CONHECEREM.

“Aquela capa em retalhos amarelados, não sei se foi por ação do tempo ou se foi culpa do rei, sei apenas que me condenei ao abrir em páginas o que era perante essência, a forma física e espiritual daquilo que chamam de danação”.

            Não falo da peça de teatro, falo de algo pior.

            Há treze dias eu abri aquelas páginas. Desde então, o tempo oscilava. As memórias e as tardes estavam desconexas.

            O ofício de pintar em nada mais ajudava, muito além do trabalho ou passatempo, aquilo que era tão costumeiro e repetitivo agora me causava ânsias como um café morno, não sendo quente ou frio, o vomitarei. E aquele quadro, a tantas pinceladas — eu não tenho mais a noção de quanto tempo estava nele. Dizem que a obra de um artista fica com um fragmento da sua alma, e eu poderia dizer que aquela tela me tomou uma centena em existência.

            Era estranho, em alguns momentos eu poderia jurar que ainda estava em seu acabamento, e logo depois, sentia que faltava muito para sua conclusão. Era uma vida que havia nascido moribunda, e aquele paradoxo girava em uma roda de miséria e terror, e a cada vez que a volta completava, ficava mais claro que era um pesadelo sem fim.

            As tintas também me pareciam eternas e aqueles tons em nada amparavam o meu ser, era tudo um maldito complô para me desestabilizar, mas decidi enfim terminá-lo, possivelmente um mero humano como eu jamais irá captar tamanha beleza.

            Apesar da umidade, a tinta secou depressa. Assinei e lhe dei um nome, a moldura lhe vestia bem, e ali estava, o quadro ficou pronto, porém a dona ainda viria pegar. Quanto mais olhava ele, mais a queria. Tocando sua superfície eu poderia dizer que dava para se sentir um calor corpóreo, um leve rosar de bochechas me dizia que havia irrigação sanguínea real ali.

            Ora apareciam alguns tons que não recordo ter usado, o álcool não me ajudou muito e tudo aquilo parecia estranhamente ominoso e familiar. Para completar aquele presságio nefasto, ao me aproximar da tela, olhando mais perto, percebi, que as lágrimas da dama tinham escorrido um pouco mais.

            Sozinho em casa, apenas com meus pincéis, a crise dos 30 molestava-me. Me perdi em pensamentos de como seria a minha vida dali em diante. Até então eu não tinha nenhuma realização ou sequer possuía alguma ambição de um homem comum.

Sem mulher.

Sem filhos.

Sem nada.

             Somente tintas de tom breu. Perdido para sempre em uma arte que não preenchia o vazio criado por mim mesmo.

            Minha vida já não tinha sentido antes, e agora que tinha sido corrompido por aquelas páginas não restava mais nada, pois nem a morte me daria uma escapatória. Enquanto eu choramingava fui interrompido por alguém que estava batendo à porta. Era ela, a dama do quadro que veio me visitar novamente, mas era a Verdadeira, não a falsa.

            A dama levava consigo todos os bons adjetivos! Como eu havia lido em algum lugar, uma frase lhe traduzia bem: “ela era mais mulher que eu jamais seria homem”. Suas palavras tinham um charme hipnotizante, talvez as conversas que tínhamos fossem os únicos motivos de eu ainda estar sã, era como um sonho, ela me dava um objetivo para continuar caminhando e era nisso que eu queria me agarrar. 

            Apesar de ter esses sentimentos para com ela, eu sabia que a visita ali era apenas profissional, a sua encomenda estava pronta e quando aquelas duas criaturas, a falsa e a Verdadeira cruzassem a porta, a erma alcova estaria habitada por um fantasma apenas.

            O vermelho de seu vestido trazia um expecto pesado e peçonhento, tão irresistível quanto o verde tóxico do seu olhar. Após o cumprimento habitual, ela estendeu o seu braço delicadamente em minha direção, segurei sua mão com cuidado e em seu dorso — incomumente despido de luvas — depositei um beijo. O frio da pele me tocando, eu poderia jurar, quase me arrancou uma lasca do lábio.

            — Está tão fria, esqueceu de seu agasalho?

            “Não é necessário, o clima me está agradável”.

            Atravessando a porta ela entrou. A dor da perda de algo que nunca tive me destroçava por dentro. Eu sabia que aquele era o nosso provável último encontro, e cada segundo daquele era a nossa dolorosa despedida. Não suportando mais aquele flagelo e sem querer prolongar o momento tomei a direção ao ateliê esperando que fosse seguido por ela, porém antes que de fato eu lhe mostrasse o quadro, meu braço foi apreendido por um movimento quase desesperado. A força com que me segurou me deixou atônito. Olhei em sua direção assustado e reparei que estava um tanto diferente. Eu não sabia dizer se era a em sua aparência ou mesmo em sua alma.

            — Você está se sentido bem? —  Lancei um olhar direto ao seu e ela o devolveu sem hesitar. Fiquei intimidado com a fúria daqueles olhos, me arrependo de tê-la pintado com o aspecto fraco de sua personalidade, sendo que “força” é a palavra que lhe define melhor. E, tão fraco que sou, não pude resistir à aquele olhar por muito tempo, então tive de insistir —quer ver a sua tela?

            “Adoraria”.

            Impetuosas eram suas respostas.

            Caminhamos até o ateliê, tinha deixado a tela na varanda para que a brisa diminuísse um pouco dos odores que a tinta exalava. Ficamos ali, admirando a obra, era até curioso ver aquelas duas frente a frente, era como se gêmeas se encarassem. Tão semelhantes, mas tão diferentes! A palidez de quem estava fora da tela era espectral, enquanto que a dama em prantos mesmo em sua terna melancolia, ainda emanava vida. Uma parecia tentar aquecer o corpo com o vermelho do tecido e a outra, mesmo feita de tinta fria e vestida com azul ultramar, tinha um calor próprio de sobrevivência. Era uma guerra indireta e as duas tentavam provar a si mesmas que eram reais, e era uma competição sobre quem era a verdadeira. Eu podia sim me orgulhar de meu trabalho.  Fiquei esperando algum comentário ou qualquer crítica, mas ela permanecia lá em completo silêncio e em evidente satisfação, parecia feliz por se considerar o indivíduo genuíno. Então eu quis saber sua opinião, eu havia ou não produzido uma nova criatura?

            — E então? O que achou?

            “Belíssimo!” me respondeu com um lindo sorriso nos lábios.

            — Eu jamais me perdoaria se fosse o contrário!

            “Então devemos comemorar com alguma bebida”

            — Ainda tenho Jasmim de que tanto gosta, posso lhe fazer um chá.

            “Teria algo mais forte?” Uma intensão dissimulada começava a tomar forma, fazendo meus pelos eriçarem. Pensei ser apenas uma brincadeira, mas no fundo sabia o desfecho que eu queria, por esse motivo entrei em seu jogo, me entreguei por completo à sua condução.

            — Tenho café e conhaque.

            “Conhaque me parece bem”

            — Não imaginei que ingerisse esse tipo de bebida.

            “Há muitas coisas sobre mim que você não sabe”

            A malícia daquela frase me desestabilizou por completo. De maneira desajeitada esvaziei a pequena mesa de centro que estava lotada com materiais de trabalho,  arrastei ela até o meio da varanda enquanto era observado e avaliado por minha companhia. Entrando novamente em casa voltei com duas cadeiras limpas e uma flanela surrada, limpei a pequena mesa e posicionei as cadeiras. Agora retornando com uma garrafa de conhaque, fiz sinal para que Marie pudesse sentar, após isso imitei sua ação. Nos servi e devagar íamos degustando a bebida, aos poucos comecei a desfrutar e não ter pressa para terminar aquele encontro.

            Ficamos mudos por um instante porém, o momento só não foi constrangedor, pois a circunstância estava realmente agradável e as vezes o silêncio apenas reforçava o prazer da ocasião.

            Sem perceber, a repetição da garrafa virada em nossos copos nos fez perder a razão. Eu admirava a beleza daquela Afrodite enquanto distraída, levava o copo a boca. O seu olhar vagava para o quintal além da varanda, experenciando aquela paz simples e reconfortante que em raros momentos  usufruímos. A encarava de maneira automática e sem pudores, sem pensar ou repensar — eu, apenas a focava. Quando percebeu os olhares indiscretos sobre ela, fiquei envergonhado por minha grosseria, e para tentar esquivar do embaraço refleti sobre nossa situação.

            — Passamos um pouco dos limites — ela me olhou sem nenhuma preocupação, cada ação sua era calculada e nada do que tenha feito, era senão o que planejou — isso é com certeza mais uma de suas surpresas não é? — Como resposta ela me deu apenas um sorriso cínico.

            A excitação me tomava conta, eu tentava a todo custo continuar com a boa postura, mas aos poucos o álcool soltava minhas amarras e temi perder o controle. Não era comum uma dama fazer visitas a um homem solteiro, por isso, a todo custo queria deixa-la confortável em minha presença, queria que ela se sentisse segura ao meu lado.

            “O que mais te surpreenderia?” Disse ela dando seu último gole. Acompanhei o movimento dela depositar o copo vazio em cima da pequena mesa. A figura de um lábio impresso com batom na borda foi um detalhe voraz.

            — Não sou exigente, algumas palavras me são suficiente.

            “Já deve ter ouvido muita coisa, então isso seria difícil” o timbre de sua voz tomava uma acústica perigosa, e isso ia me levando a se jogar naquele abismo de sedução.

            — Não se trata das palavras em especifico, mas de quem as fala.

            “Dizer que eu te amo, isso será o suficiente?”

            Enfim a conclusão ainda conseguiu me deixar em choque. Tomei ciência de uma frase maravilhosa no vocabulário português. Sempre imaginei ser irreal ouvir tal declaração vir dela, não seria incomum estar entregue ao delírio. A força com que me veio fez evaporar todo álcool do corpo. Ali mesmo, seguramente sóbrio, eu ainda precisava ter a certeza e a seriedade do que pensei ter escutado.

            “Eu te amo” o lábio se moveu deixando ainda mais claro aquela afirmação, e foi simples e certeira, o caos de uma tempestade esplendida!

            Fiquei com o coração na garganta, não podia falar, eu estava prestes a explodir em frenesi. Minha saliva estava seca e a língua já esfarelava, a ventilação mal circulava nos pulmões, mas por algum milagre uma frase saiu de mim.

            — Também te amo — quase sem fôlego lhe respondi.

            Aproximei-me dela em um gesto que ela entendeu e quando percebi já estávamos unidos por um beijo. Eu me tremia, poderia ser o frio, mas poderia ser a emoção do momento. À segurei, segurei forte pois temia perde-la. Lhe envolvi em meus braços e agasalhei com meu calor, eu queria supri-la com o que fosse necessário. Eu estava feliz, finalmente aquele sentimento de felicidade retornou e o seu toque ao mesmo tempo que era uma novidade, também sempre me pertenceu, como uma memória que não poderia ser esquecida, era como se fossemos um do outro a eras e o vento me dizia que era isso mesmo.

            A sucessão foi natural, dividíamos o mesmo teto. O retrato que pintei dela estava em nosso quarto e o livro estava na estante, porém na prateleira mais alta, pois temia que ela o encontrasse e tivesse o mesmo destino que eu.

            Agora o dia estava bonito, ele inspirava alegria, mas meu coração que embora tivesse ganhado o amor de Marie, ainda estava abalado com O Gado Cujo Feno Era O Couro. Como alguém poderia ter escrito aquilo? Isto é, se foi realmente obra de algum homem.

            Suas palavras são explícitas demais para um mero mortal ler, poderia até dizer que ele veio de Carcosa, nem o rei era tão cruel quanto aquele “rebanho”. Enquanto eu fazia aquela anamnese, a felicidade de um sonho se mesclava com uma culpa inabalável, voltei a visão ao meu redor procurando por um Tridente, porém ele deveria estar oculto, e disso tinha plena certeza.

            Enquanto ela estava fora, eu me admirava com a obra que criei, realmente captei a sua essência, em plena verdade poderia dizer que havia capturado o que compunha Marie. Cada traço era preciso e toda vez que coloco os olhos na tela poderia ver um detalhe novo na constante mudança da figura ali impressa. Novamente, as lágrimas no quadro tinham escorrido mais.

            Era a reprise, uma esclera avermelhada combinando ao rubro de seu rosto, me perguntei para que tanto desespero? Mas era verdade, haviam lágrimas brotando da tela, tão vivas quanto as minhas. Os olhos lá dentro estavam brilhando e percebi que era minha amada Marie que estava dentro daquela tela, mas não a falsa, a Verdadeira. Questionei sobre quem estava comigo em casa, embora no fundo já soubesse a resposta, afinal a quantos dias ainda me aconteceu? Meus pensamentos foram quebrados.

            “Octávio querido, algum problema?” Disse o fantasma.

            Fiquei sem fala, pois ali posterior a mim tinha algo que se parecia com minha mulher. Ao me virar vi que no lugar das suas órbitas oculares, um fundo negro jorrava tinta de cor carmim. Vida ali não havia. Continuei sem falar pois estava completamente apavorado, meu presságio estava correto e ela perguntou novamente em um tom nefasto:

            “Meu querido, você está cansado, por que não dorme?”.

            O controle sobre meus membros havia desaparecido, me distanciei do quadro e fui em direção à cama, manobrado como um homem. Deitei minha cabeça sobre seu colo, usei-o de travesseiro, e ela começou a acariciar meus cabelos.

            “Não se preocupe, o dia está quase chegando”.

            — Que dia? — Retruquei.

            No recôndito insondável… (houve breve silêncio) Como rubro pranto, o céu e a lua se vestirão de carmesim, como um augúrio celestial de um destino de ira e ardor implacável. Senti o tom malévolo de sua frase e percebi que era uma passagem escrita naquele livro. Ficou claro que Marie tinha lido aquelas páginas e se condenado. “Ele está voltando”, ela disse e completou “E ele quer você”.

            Deitado em seu colo os movimentos me eram limitados, mas foi o suficiente para ver que as lágrimas de minha mulher no quadro agora eram de puro carmim e o dia belíssimo que eu pensei ver mais cedo era na verdade uma tarde sombria e melancólica.

            “Está quase na hora do dia chegar ao fim”.

            O ambiente tomou o vermelho por padrão, deduzi que era o falso pôr do sol, foi então que as sombras uniram-se às luzes do crepúsculo.

            “Ele chegou” disse ela.

            — Eu sei — lhe respondi.

            Senti mãos tremendamente fortes segurarem minhas pernas. O afago fantasmagórico tinha cessado; após isso senti um puxão violento que me derrubou e me arrastou para baixo da cama, e enquanto caía , numa fração de segundo, vi o quadro da minha esposa escurecer e depois foi a minha visão turva que foi entregue ao negror profundo. Senti um frio enorme na barriga e acordei. Tudo não havia passado de um pesadelo, novamente.

            Olhando para o quarto não vi o quadro e nem minha mulher. Não tenho mais certeza sobre sua existência; somente havia um copo com conhaque em cima da mesa de cabeceira, que talvez sempre tenha sido a meu verdadeiro companheiro. Olhei ao redor e procurei por algo suspeito, porém eu estava só e não havia sinal do livro.

            Após ter levantado da cama fui em direção à cozinha para beber algo que não contivesse álcool, aliás, nunca mais iria beber nada alcoólico em minha vida. No fundo eu estava feliz por tudo ter sido um sonho, mesmo que ainda estivesse sozinho.

            Indo para a varanda do ateliê, tentei respirar um pouco de ar puro.  Notei o tridente que pintei no chão, aquilo me deixou em estado de alerta. Sempre soube que fui eu quem o pintou, embora não lembrasse quando. Junto a tremores que não eram oriundos do frio ou coisa parecida, senti algo queimando em minhas costas.

            A medida que me habituava a estar acordado e com uma pequena dificuldade fui levantando minha camisa devagar, e quanto mais levantava, mais uma gradativa ardência se somava a um pressentimento ruim; e com a camisa enfim levantada percebi um enorme arranhão e queimadura nas minhas costas, causadas por atrito ao chão. Fiquei sem acreditar se estava acordado ou não, e foi então que senti uma sensação de déjà vu, pois a tarde em que eu havia acordado era uma tarde sombria e melancólica.

Nova Palmeira – PB

03 de Outubro de 2015

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