O Estranho Caso de Luke Hasselbalch

I

Na época que estive prestes a concluir meu curso superior, me lancei ao mundo para aplicar minhas habilidades que estavam até então mais ligadas à teoria do que à prática em si. Minha empolgação era intensa!

Investiguei minuciosamente as ofertas de estágio, naquela época, e, muitas delas eram interessantes. No entanto, tendo decidido não carregar preocupações além das de um estudante, acabei encontrando uma oportunidade interessante numa cidade do Brejo Paraibano. Apesar da distância, o encanto do lugar impactou consideravelmente em minha escolha e decisão final.

            A cidade e seu clima frio prometiam ser bastante agradáveis. Além disso, o senhor que era o proprietário do estabelecimento também era farmacêutico, o que me fazia considerá-lo um futuro apoio para recomendação profissional. O ritmo tranquilo da cidade também indicava que eu não teria um trabalho desgastante. Parecia ser feito sob medida para mim! Essa oportunidade iria permitir o devido descanso da mente e, por consequência, recuperar-me da fadiga.

            A hospedagem seria no próprio local de estágio, eliminando quaisquer preocupações com aluguel e coisas a esse respeito. O pagamento consistia simplesmente no trabalho que eu realizaria como manipulador de medicamentos, algo que já era uma responsabilidade inerente. Essa circunstância me favoreceu significativamente, já que a alimentação também estaria contemplada. Naturalmente, a escolha do local já estava mais que determinada, restando, agora, apenas organizar as malas como próximo passo.

            Durante minha viagem, reparei na ordem decrescente no tamanho das cidades. A cada ônibus em que embarcava, podia observar claramente a transição de uma paisagem de concreto para um cenário cada vez mais verde ao meu redor. O barulho e o caos típicos das áreas urbanas se atenuava à medida que eu desbravava mais profundamente os confins do interior.

            Eu tinha uma preferência para sentar junto à janela do ônibus, e quanto mais essa janela fosse aberta, mais agradável se tornava a jornada. No entanto, era um tanto assustador mergulhar naqueles territórios desconhecidos. Uma sutil hostilidade me inspirou certo temor, e mesmo diante do magnífico pôr do sol que só o interior proporciona, uma pequena cisma incomodava.

            Ao atravessar os cactos da caatinga, o solo rachado gradualmente cedeu espaço a um degradê úmido, e quando já se via, estava sobre um chão quase pantanoso. A transição continuava, e onde antes avistava carcarás, agora garças dominavam o cenário. Acompanhando as mudanças, devagarinho, fechei o vidro da janela, limitando o frio que invadia. Ali era o sinal de que o brejo se aproximava.

            Ao longo do percurso, eu soltava suspiros profundos, carregados de emoção. A sensação que experimentava era a de cumprir um grande dever. Aquela jornada marcava o início da minha trajetória profissional, e isso transcendia em muito as conquistas de meus pais; era uma vitória que ia além de mim.

            Quando finalmente alcancei a última parada, minhas pernas tremeram. O aroma do ar era fresco e úmido, envolvia-me. O solo sob meus pés era um pouco acolchoado, e as folhas caídas pareciam resistir em se dissolver, ao que parece o frio as conservavam por mais tempo do que devia. Ao passar a sola do sapato na terra, expus o solo em sua real natureza, as folhas afastadas pelo calçado desvendavam insetos e até mesmo vermes que se ocultavam sob aqueles tapetes de vegetação morta. Tomei cuidado para que as malas não entrassem em contato com a sujeira e segui meu caminho.

            Em uma cidade pequena, não é difícil se chegar ao destino desejado. Em pouco tempo, localizei a residência do Dr. Luke Hasselbalch. Sua casa destoava notavelmente das demais. A arquitetura portuguesa era simulada, com azulejos brancos adornados por detalhes em azul ciano, preenchendo toda a parede. Poderia até considerar a casa como um projeto ilustrado, como se cada linha daquelas imagens impressas estivessem contando uma história.

            Aproximei-me de uma fachada com proporções exageradas. Suas janelas emolduradas por guarnições magníficas, contrastavam com o marrom do telhado, marcado pelas chuvas. A imponência das pinhas, somado ao curioso fato de haver ainda outra influência internacional no projeto arquitetônico, conferiu um charme adicional àquela habitação. Isso havia dado o reconhecimento de que àquele prédio, era uma verdadeira obra de arte.

            Bati três vezes na porta, até que ouvi um distante — espere um momento — ecoando de dentro da casa. Uma sequência de ferrolhos rangendo ressoou por toda o local, e a porta se abriu. Com rangidos dignos de compaixão, a porta entreaberta revelou uma alcova de aspecto similar ao de um mausoléu. Uma voz fraca e pouco convidativa praticamente sussurrou — entre rápido — a frase soou de forma ominosa, mas, sem hesitar ou temer, entrei. Uma vez lá dentro, percebi imediatamente que a casa era estranhamente fria, ainda mais do que o lado de fora.

            — O professor Paulo me deu boas recomendações a seu respeito — começou a conversa o meu anfitrião.

            — Que ótimo! Sou o Ânderson, é um prazer conhecê-lo!

            — O meu nome você já sabe. Também é um prazer conhecê-lo.

            O senhor de cabelos prateados, com muitos anos de vida sobre os ombros, trazia em sua face, as marcas de uma vivência longa e rica. No entanto, o que verdadeiramente me chamou a “atenção”, para evitar falar de forma indelicada, era o odor que exalava. A descrição “insuportável” mal conseguia abranger a gravidade desse aroma. Ele se assemelhava aos vapores fétidos de solventes orgânicos que, quando reagem sem o devido equipamento de proteção, aniquilam os receptores olfativos. Intenso, quase avassalador, esse cheiro era sobrenaturalmente repulsivo.

            Minha incapacidade de ocultar ou até mesmo disfarçar minha expressão de desaprovação é um dos meus piores hábitos. O idoso notou meu desconforto, e o embaraço se recaiu entre nós dois.

            — Devo me desculpar pelo meu cheiro. Utilizo um medicamento especial que eu mesmo manipulo aqui — houve um breve silêncio; ele inspirou profundamente, recuperando o fôlego, e continuou — ao longo dos anos, desenvolvi uma doença de pele que me tornou fotossensível, impossibilitando sair durante o dia. Se você estiver disposto a ficar aqui durante esses meses, terá que suportar isso, mas se preferir partir, não farei cerimônias.

            O tom de autodepreciação que ele adotava em relação a si próprio despertou em mim um sentimento esmagador de culpa, pois, fui eu quem havia provocado aquela situação — claro que, infelizmente, o seu odor também desempenhou um grande papel nesse delito, e isso me absolveu parcialmente da responsabilidade daquele constrangimento.

            Devido ao tempo que passei trancado em laboratórios, acabei desenvolvendo uma tolerância a odores intensos, o que imaginei que poderia ser minha vantagem para sobreviver durante minha estadia ali, e para lidar com o seu cheiro sem padecer — desde que mantivesse uma distância segura, ao menos.

            — Não se preocupe, não sou facilmente abalado! Afinal, sobrevivi ao professor Paulo, não é mesmo?

            Ele sorriu, revelando dentes brancos.

            Enquanto caminhávamos, ele me mostrava partes da sua imensa casa. O exterior não me deu uma ideia real da sua verdadeira magnitude; era uma residência verdadeiramente colossal. Detalhar o interior se mostrava difícil, pois, eu estava lidando com a escuridão intensa e tropeçava aqui e ali. Meu anfitrião se desculpava a cada obstáculo, dizendo “a casa precisa ser protegida de qualquer luz solar”. As únicas fontes de luz aceitáveis eram velas ou lamparinas.

            A queima do querosene não conseguia sobrepujar o odor urticante do velho. A luz penetrava ainda mais a escuridão de um corredor tenebroso. Ele me conduziu ao laboratório, onde eu passaria a maior parte do tempo. Havia um auxiliar que o ajudava no manuseio da matéria-prima e na distribuição dos produtos acabados, mas ele foi dispensado temporariamente, pois, durante a minha estadia ali, isso seria mais uma das minhas responsabilidades. A caminhada continuou até chegarmos aos meus aposentos.

            — Você não precisará começar hoje, desfaça as malas e descanse da viagem. Mais tarde, por volta das 18:00, iremos jantar e depois teremos uma conversa na biblioteca.

            Segui as instruções dele. Desfiz as malas e organizei minhas roupas em um roupeiro. O quarto era suficientemente amplo e, para minha surpresa, havia um banheiro. A cama era confortável, apesar das molas produzirem um ruído excessivo ao deitar. O odor no quarto era de bolor, mas, curiosamente, servia como um antídoto e até mesmo como um alívio para minhas narinas. Pelo menos, me foi permitido abrir as janelas do quarto e constatei que o vento de fora estava menos gelado do que a temperatura interna. Tomei um banho sofrível e, depois de me trocar, preparei as lamparinas para mais tarde.

            Encontrei-me com o Dr. Hasselbalch na sala de jantar. Como você já deve saber, a mesa seguia o mesmo padrão de tamanho que já mencionei antes. Estava elegantemente arrumada e iluminada por velas, enquanto a madeira escura e ricamente entalhada conferia ao móvel uma função adicional: além de ser útil para refeições, também adornava a sombria sala de jantar de forma impecável.

            A comida estava ao meu alcance, mas havia uma distância segura entre a minha cadeira e a do meu anfitrião, talvez para garantir que meu apetite não fosse comprometido. Sentia um certo receio por saber que a refeição havia sido preparada por ele, mas tamanha foi a minha surpresa ao provar daquele magnífico banquete. Os temperos estavam perfeitos e, mesmo com o enjoo da viagem, me entreguei à refeição com voracidade. Era compreensível, afinal, os químicos, em geral, são os cozinheiros da precisão, e um laboratório químico, não é nada senão uma grande cozinha.

            Após o jantar, recolhi os pratos e auxiliei na lavagem da louça. O senhor idoso seguiu adiante e pediu que o encontrasse na biblioteca quando terminasse o serviço. Não demorou muito; depois de concluir a lavagem, tentei seguir as indicações que havia recebido. Percorri corredores gélidos e sombrios. A chama da lamparina oscilava, e eu compreendia que inexplicavelmente até aquela chama podia sofrer do frio anormal daquele ambiente.

            Ao longo das paredes, retratos pintados à mão estavam pendurados, impressos em telas amplas e emoldurados de maneira requintada. Essas pinturas representavam paisagens de épocas ancestrais, uma arte singular e ainda mais singular eram as expressões nos seus rostos. Apesar da diversidade étnica em nosso país, tinha certeza de que os indivíduos retratados pertenciam a outro continente, e considerando o nome do meu anfitrião, acreditei que minha suposição poderia estar correta.

            Lembro-me de ter passado por uma porta singular, que deixava fugir o mesmo odor característico do velho Luke por seus batentes. Uma breve curiosidade sobre o que poderia estar por trás dela cruzou minha mente, mas acabei ignorando essa possibilidade tão rapidamente quanto ela surgiu.

            À medida que avançava, minha percepção do local parecia se distorcer; a ideia exagerada de espaço começava a se manifestar. Não era comum ter que dar tantos passos para alcançar um cômodo; pelo menos, não era natural para mim. Uma porta entreaberta permitia que uma luz vermelho-amarelada se derramasse pelo corredor. Presumi que fosse a biblioteca, onde Luke me aguardava.

            Após atravessar a porta, tive um vislumbre do que eu ousaria chamar de fragmento do paraíso: que biblioteca espetacular! Uma vasta coleção de exemplares dos mais diversos gêneros textuais e literários estavam diante de mim. Livros antigos, edições recentes, um globo terrestre clichê, algumas pequenas estátuas e uma lareira no canto da sala, que parecia não ter sido usada há muito tempo.

             — Que lugar fantástico! — exclamei, completamente surpreso.

            Sentado em uma poltrona, mergulhado na leitura de um livro sob a luz de um castiçal, estava Luke. Seus olhos estavam fixos na obra que consegui identificar como “Histórias Extraordinárias” do mestre Edgar Allan Poe. Era uma edição antiga daquele livro, mas o acabamento era extremamente charmoso.

            — Notei uma pequena rachadura no alicerce da casa, certifique-se de que não vá desabar — quis fazer com que ele percebesse a referência para mostrar que eu estava familiarizado com o autor.

            — Você gosta de Poe? — perguntou.

            — Se gosto? Adoro! A obra que mais me fascina é o “Demônio da Perversidade” — o velho não pareceu muito impressionado, mas decidi continuar o diálogo — E você, tem alguma obra favorita?

            — Não tenho um trabalho específico favorito, mas posso dizer que suas histórias de detetive têm um encanto especial.

            — É verdade que ele não é frequentemente lembrado por essas histórias.

            — Pobre Dupin, sua vida não se estendeu muito além de três contos, mas ainda me lembro dele.

            Para ser sincero, naquela época eu não estava familiarizado com os contos de detetive dele; tinha lido apenas o que a maioria considerava suas obras mais renomadas. Naquela fase, estava apenas começando a engatinhar em minhas leituras, afinal, era desafiador conciliar tempo para a literatura e para os cálculos matemáticos.

            — Me admira você conhecer o Poe. Você costuma ler obras não acadêmicas? — Ele me questionou, sua expressão revelava curiosidade. Pensar que algo tão comum como o ato de ler poderia causar assim estranheza

            — Sim, de vez em quando leio.

            — Percebi que vocês não têm o hábito de leitura muito arraigado, o que talvez explique os acadêmicos com péssimos hábitos gramaticais e o falar tão pouco desenvolvido.

            Lhe dei um sorriso um tanto sem graça, pois, sabia que onde ele notasse falhas, certamente eu me encaixaria.

            — Desculpe se for intromissão, mas você é estrangeiro? — Perguntei, curioso sobre sua origem.

            — Sim — a resposta veio breve e direta.

            — De onde?

            — De muito longe.

            Percebi que ele não tinha interesse em fornecer mais detalhes, então não continuei pressionando o assunto.

            — Você fala português muito bem — isso é realmente notável.

            — Já faz um bom tempo que estou em suas terras — ele pegou um pedaço de papel que estava em seu alcance, o colocou entre as páginas e de súbito fechou o livro. Depois, olhando para mim, iniciou um novo diálogo — jovem apreciador de histórias fantásticas, vamos definir como você irá trabalhar aqui.

            Em uma pequena mesa de centro entre nós, o livro que ele lia agora repousava. Sentei-me em uma segunda poltrona idêntica àquela em que ele estava. O estofamento era tão confortável que tornava difícil manter uma postura adequada; tive que fazer um esforço para manter a coluna ereta. O Dr. Luke esperou até que eu demonstrasse estar atento antes de continuar.

            — Temos metas diárias para a produção que precisamos cumprir, e as encomendas têm prioridade — ele falava de forma pausada, garantindo que não houvesse equívocos na interpretação — preste muita atenção, pois, não há espaço para erros no controle de estoque.

            — A demanda na cidade é alta?

            — Na verdade, não nessa cidade, mas fazemos entregas para as cidades vizinhas.

            — Entendo — a forma de se expressar acabou revelando meus pensamentos novamente.

            — O que houve, rapaz? Mal começou e já está com preguiça? — Sua risada me deixou um tanto sem jeito; não consegui responder de imediato — não se preocupe, o trabalho passa rápido e pode até ser divertido.

            — Vou me esforçar ao máximo! — respondi determinado para não causar outra má impressão.

            — É bom que você se esforce mesmo. Os cálculos são simples, porém, exigem bastante atenção. Aqui temos um horário para começar, mas não para terminar; encerramos o trabalho somente depois de atingir a meta.

            — É muita coisa?

            — Depende do dia, mas geralmente não é nada que leve à exaustão.

            — Será que vou dar conta? — minha preocupação era evidente.

            — Não no começo, mas com o tempo você ganha prática. Primeiro, é tudo uma questão de observação, depois é mãos à obra!

            Nos dias subsequentes, passei a maior parte do tempo na farmácia. Rapidamente me acostumei a manipular os medicamentos. A maioria das tarefas envolvia preparar cápsulas, soluções e cremes. Como ele havia dito, se não houvesse muitas encomendas específicas, o trabalho era concluído rapidamente. Inicialmente, ele supervisionava de perto para garantir que tudo estivesse correto, mas depois apenas verificava o resultado e encerrava o expediente do dia.

            Costumávamos nos encontrar na biblioteca após o jantar. Os assuntos literários sempre dominavam nossas conversas, abordando obras e autores diversos. Ríamos com o “Caso do Sr. Valdemar” e “O Vento Frio”, enquanto imaginávamos Poe e Lovecraft revirando-se em seus túmulos. Com o tempo, nossos tópicos de conversa foram se expandindo, abrangendo diferentes temas. A ausência de discussões acadêmicas aliviava a pressão do estágio, tornando-o mais agradável.

            Em alguns momentos livres, quando não saía para caminhar, eu explorava os livros de sua coleção. Isso já era suficiente para meu entretenimento. A rotina estava equilibrada: tinha a prática no laboratório, o descanso adequado e a amizade que estava se fortalecendo com o Dr. Luke Hasselbalch, o que poderia render boas recomendações no futuro. No entanto, eu estava longe de prever o que o destino me reservava.

II

Conforme os dias se seguiam, o hábito se consolidava como um verdadeiro facilitador da rotina. A eficiência com a qual eu executava minhas tarefas era notável, refletindo diretamente nos resultados finais do meu trabalho diário. Consequentemente, o serviço muitas vezes era concluído antes mesmo do que se pretendia ser o fim do expediente. Ambos os objetivos eram logo alcançados: minha meta diária e a oportunidade de encerrar a jornada de trabalho para descansar quanto antes.

            Com os medicamentos agora encapsulados, guarnecidos e rotulados, o único obstáculo que me separava do descanso era a limpeza padrão das bancadas e dos utensílios do laboratório. Assim que eu me livrava dos EPIs, eu ia imediatamente ao meu aposento para trocar de roupa. Tomando o agasalho, me preparava para dar uma caminhada e espairecer a mente, desfrutando de um merecido descanso.

            A escuridão já me era amigável, não mais me impedia como antes. Ao abrir a porta da frente, deparei-me com uma densa neblina que preenchia todas as ruas. O leve sereno não me molharia muito, porém, sua umidade e frio seriam um catalisador perigoso para um inconveniente resfriado. Olhei ao redor, buscando uma alternativa em minha mente, mas a resposta era óbvia: eu deveria ficar em casa, de castigo.

            Não restando outra opção, decidi concluir a leitura do exemplar de “Contos Sobrenaturais de Rudyard Kipling” que havia tomado emprestado da biblioteca do Dr. Luke. Seguindo o caminho em direção à biblioteca, retomei meu trajeto sinuoso ao lado dos antigos quadros. Essas pessoas deviam ser muito importantes para terem seus retratos pintados. A curiosa arte de capturar almas com tinta e pincel ainda me causava certo desconforto. Quando retratados com maestria, os olhos poderiam seguir quem os observava. “Quando você olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você”, e perder-se no olhar de outra pessoa é uma das mais ominosas armadilhas.

            Eu nunca havia parado para examinar cuidadosamente as pinturas antes, pois ao passar ao lado da porta dos gases corrosivos, minha mente já era tomada por uma embriaguez atordoante, sem mencionar que a chama da lamparina também não ajudava. Agora, mais atento, observei em um dos retratos uma figura de aspecto semelhante ao do meu anfitrião. Na verdade, “semelhante” é um termo equivocado; o correto seria dizer “idêntico”. Além de uma assinatura estranha, que suponho ser de um artista estrangeiro, os quadros também traziam gravada a data de sua concepção.

            Era admirável que esses retratos estivessem tão bem preservados mesmo após tanto tempo. A similaridade assombrosa do antepassado de Luke Hasselbalch só reforçava o quão admirável é o milagre da genética. Muitos eram os nomes ali, vidas e experiências que ninguém mais lembrava, aprisionados no meio das sombras, sem possibilidade alguma de serem libertados.

            Ao chegar finalmente à biblioteca, constatei a ausência de Luke no local. Provavelmente, ele estaria em seu escritório, ocupado organizando a papelada, ou talvez estivesse em seu fétido laboratório particular.

            Sem poder acender a lareira, e mesmo que pudesse, não saberia, continuei com o agasalho e tomei de assento uma das poltronas. Fiquei envolvido na minha leitura por algum tempo e, estando nos capítulos finais do livro, não demorei a virar as últimas páginas. Suspirei profundamente, sentindo uma mistura de tensão, cansaço e satisfação. Ainda me restava bastante tempo antes do jantar, e era comum que Luke não mais aparecesse.

            Desde que me tornei mais independente, ele usava o seu tempo extra para cuidar de suas próprias ocupações. Nossos encontros geralmente ocorriam após a ceia; antes disso, ele costumava desaparecer e, ao retornar, estava ainda mais malcheiroso. Provavelmente, estava ocupado com seu tratamento pessoal.

            Olhei ao redor, pronto para iniciar uma nova leitura. Após guardar o livro que havia terminado, tomei em mãos uma pequena escada que auxiliava a alcançar os volumes literários mais distantes. Enquanto examinava os tomos nas prateleiras mais altas, me deparei com uma pequena corrente escondida entre dois livros, no meio da escuridão. Ela se camuflava em uma lacuna e havia um feixe de brilho em seu elo, refletindo uma luz desconhecida e impossível naquele lugar.

            Puxei a cadeia e percebi que estava presa a algo. Com a ajuda da luz proveniente da lamparina, escondido atrás de alguns volumes, descobri um livro amarelado que estava aprisionado por aquelas correntes. O objeto despertou minha curiosidade. Peguei-o e, com um sopro, removi a poeira acumulada sobre a capa. “O Gado Cujo Feno Era o Couro”. O título me causou um medo profundo. Um arrepio percorreu meu corpo e uma culpa tomou a propriedade de meus sentidos.

            Um reflexo instintivo me fez jogá-lo de volta onde o encontrei. Encarei aquele livro encadernado como se tivesse encontrado meu próprio algoz. Uma sensação de urticária percorreu minha pele, e temi por uma doença incurável. Somado a isso, uma crise paranoica se apoderou de mim, e milhares de pensamentos inundaram minha mente em questão de segundos. Essa é a sensação de tocar o livro com a capa amarela.

            Ao inferir um delito, tentei desfazer toda a cena do crime. Os rastros de uma passagem humana naquele local deveriam ser esquecidos. Coloquei a escada de volta ao seu lugar e fiquei sentado em minha poltrona, completamente atônito. O coração queria fugir pela garganta e o suor frio escorria a cútis. Permaneci em total silêncio, lutando para respirar enquanto algo parecia comprimir meu peito. Voltei a mim quando a voz do Dr. Luke ressoou pelos corredores, chamando meu nome.

            Durante o jantar, eu me esforcei para não proferir frases desnecessárias, mas a ansiedade me consumia. Eu desejava falar sobre o que tinha presenciado, uma tentativa de aliviar a culpa e o horror que cresciam dentro de mim. Após terminar a refeição, enquanto lavava os pratos, sabia que a sequência natural seria retornar à biblioteca, como de costume, e isso me deixava em pânico. No entanto, não era possível evitar. Eu realmente ansiava por ter a oportunidade de me confessar.

            Quando finalmente ficamos frente a frente, eu já não sabia mais por onde começar. Ele iniciou perguntando sobre os relatórios diários do trabalho, e eu respondia com pequenas falhas em minha fala. Ele não percebeu minha inquietação e continuou falando sobre assuntos banais que, em outras circunstâncias, teriam sido agradáveis para mim. No entanto, eu não conseguia me concentrar neles, pois, a imagem de uma ameaça abstrata ainda estava fixa em minha mente.

            Interrompendo-o com hesitação na fala, finalmente tive coragem de fazer a pergunta que tanto me atormentava.

            — O que é “O Gado Cujo Feno Era o Couro”?

            Seu semblante ficou completamente perplexo diante o ímpeto das minhas palavras, tomando para si um contorno cheio de pavor. Após nos entreolharmos, seguimos com nossos olhos ao ponto da estante de onde o livro estaria nos amaldiçoando. O movimento de nossas retinas foi sincronizado de forma tão perfeita que focamos naquele local ao mesmo tempo, quase de maneira cômica, se não fosse pela desagradável circunstância que nos envolvia.

            — Você o leu? — Seu medo era evidente.

            — Não, ele estava acorrentado.

            — Fique aqui.

            Levantando-se rapidamente, seguido por seu característico odor, o Dr. Luke pegou a pequena escada e subiu os degraus desajeitadamente, que qualquer descuido poderia o derrubar. Jogando alguns livros no chão, ele estendeu o braço para trás da prateleira e retirou o livro de lá. Eu apenas o observava andar de um lado para o outro na sala, inquieto e pensativo. Não ousei abrir a boca, temendo que qualquer palavra que eu dissesse pudesse ser usada contra mim. A tosse veio logo que seu corpo começou a estremecer.

            — Quer que eu acenda a lareira?

            — Não! A luz e o calor vão me fazer mal — disse ele, parando e se apoiando em uma das estantes. Ele tossiu de forma frenética e escarrou no chão uma secreção opaca e gelatinosa, mesclada com o mesmo tom vermelho-amarelo da luz da lamparina, tão repugnante quanto o livro. —  Vou preparar mais remédios. —  Deixando-me para trás, o Dr. Luke saiu apressadamente e trancou-se atrás da porta miasmática.

            A partir desse episódio, o Dr. Luke passou a ficar mais tempo trancado no quarto dos odores. Apesar de conseguir lidar com a manipulação, as encomendas começaram a diminuir, e no fim não me restou muito, exceto entregar-me ao ócio. Nas raras vezes em que eu o via, quase não trocávamos palavras. Qualquer interação que eu tentava, ele respondia com frases curtas e evitava minha presença. Seu olhar era desconfiado e um clima pesado se instalou entre nós.

            Agora, o escritório do Dr. Luke não ficava mais com a porta aberta, e ele se retirava mais rapidamente após o jantar. Suas visitas à biblioteca deixaram de existir, mas não o julgo, pois, eu mesmo não me atrevi a voltar lá. Durante minhas caminhadas, aproveitei para perguntar a alguns vizinhos sobre Luke Hasselbalch, e para minha surpresa, sua figura era um tabu. Isso apenas aumentou minha intriga. “Seja cauteloso” foi o que me disseram. Parecia que ele era respeitado, mas também causava temor.

            Um espírito de detetive aflorou em mim e decidi desvendar os mistérios daquela casa. Em uma ocasião, percebi que o Dr. Luke havia esquecido de trancar a porta do seu escritório. Sabendo que uma vez dentro de seu laboratório ele não surgiria tão cedo, vi uma oportunidade para agir. Durante minhas investigações, não encontrei nada que me levasse uma suspeita hedionda, o que, de certa forma, me trouxe um alívio. Ponderei a possibilidade de ele ser um traficante de drogas, mas nunca presenciei nada que concretizasse essa perspectiva.

            O que mais me chamou a atenção em seu escritório foi a quantidade excessiva de cartas em sua mesa, algumas delas datadas de séculos atrás. Entre elas, havia várias com o nome “Sophia”, acompanhadas com belas dedicatórias e declarações. Eu observava aquilo tudo com uma sensação bizarra. Uma carta em particular não continha palavras escritas; datada de apenas alguns dias atrás, apresentava tão-somente uma ilustração estranha de um tridente, semelhante ao símbolo de Psi. Não havia remetente, apenas o local de sua origem: uma cidade chamada “Campo Vermelho”.

            Subitamente, ouvi pancadas fortes vindas do corredor. Diante da possibilidade de me deparar com o Dr. Luke em uma situação problemática, saí rapidamente de seu escritório. Olhei atentamente pelo corredor, mas não percebi nenhuma movimentação estranha, mesmo assim as pancadas persistiam e eu no fundo sabia de onde vinham. Em frente à entrada do laboratório, a chama da lamparina tremulava em resposta ao odor da doença. Batidas violentas ressoavam de trás da porta, e com cuidado, de leve bati para ter algum tipo de resposta.

            O barulho cessou por um momento e aguardei, esperando que uma voz conhecida fizesse qualquer pergunta. No entanto, um silêncio vazio pairou entre mim e quem estava do outro lado. Antes que eu pudesse tomar a iniciativa e chamá-lo pelo nome, na pronúncia da primeira sílaba, uma forte batida na porta me abalou de forma cataclísmica. Era a resposta clara de que eu deveria ir embora.

            Rendi-me ao cansaço físico e mental. Fui dormir cedo. Pela manhã, planejava decidir o que fazer a partir dali. Durante a noite, um sonho perturbador digno de Kekulé me emboscou no subconsciente. Um homem que de silhueta poderia lembrar o Dr. Luke Hasselbalch, segurava uma taça dourada transbordante de vinho. De alguma forma, eu sabia que algo se movia dentro do cálice e o temia. Pude ouvir o som distante de goteiras, cada gota ecoando como se estivesse em uma caverna perdida no meio da mata. Uma serpente emergiu completamente banhada de vinho, saindo da taça e rastejando pelo braço, tronco e perna da figura sombria seguindo ao meu encontro. Ela sussurrou em murmúrios: “Da própria carne e sangue, os homens se saciaram”. Após proferir essa frase aterradora, a serpente começou a se devorar pela cauda e desapareceu. Desejei fazer o mesmo e sumir. Ao acordar, fiquei sem reação e passei uma semana inteira, profundamente perturbado.

            A privação do Dr. Luke Hasselbalch em seu quarto aumentava minha ansiedade. Em alguns momentos, perguntei se ele precisava de ajuda e se deveria chamar um médico ou alguém que pudesse fazer algo. No entanto, ele recusou e apenas me instruiu a adquirir produtos à base de formaldeído. Conectei os pontos e percebi a semelhança entre os odores na casa. O medo das pessoas da cidade começou a me afetar, e temi confrontá-lo. Dadas as circunstâncias, senti que não tinha muitas opções e acabei me tornando cúmplice dele, não importando em quê. Eu não sabia do que ele era capaz, mas estava claro que ele exercia alguma influência negativa.

            Ao prosseguir com as investigações, não encontrei o livro amarelo, mas em seu lugar, descobri a origem do nome “Sophia”. A mulher a quem esse nome pertencia estava retratada em uma das pinturas do corredor, com a moldura mais bela. Uma representação de Vênus. A data de criação do quadro era 1830, o que me levou a acreditar na loucura de um homem apaixonado por um fantasma.

            Os dias continuavam passando, e o odor na casa atingia um nível insuportável e perigoso para qualquer ser vivo. Luke não saía do seu laboratório, não se alimentava e não cuidava mais de seu patrimônio. Tive medo de chamar as autoridades e me ver envolvido em um esquema complexo de lidar. O ar ao redor agora tomava uma cor estranha, um aroma de gordura misturado com putrefação causava náuseas. Ao tocar nas paredes, uma camada de sebo grudava nos dedos, o que, combinado com a escuridão, se tornava um instrumento para lacerar minha sanidade.

            Em uma noite fatídica, Luke teve uma crise histérica e começou a gritar. Saltei da cama e corri em direção ao laboratório. O ar denso que escapava por debaixo da porta parecia quase palpável. Bati freneticamente e chamava por seu nome, perguntando se ele estava bem.

            — Víbora, liberte-me do inferno, liberte minha alma! — Foram as palavras que saíram pelos umbrais.

            Choros e gritos ecoaram por toda a casa. Minha alma estava mergulhada em profunda angústia, beirando a loucura. Continuei batendo na porta e exigi entrar.

            — Não leia, por Deus, não leia — Gritava o velho em completa insanidade.

            Insisti por um longo tempo, enquanto os gritos se tornavam cada vez mais altos, até que subitamente cessaram, dando lugar a um silêncio ameaçador. Segurando um lampião, decidi buscar ajuda, pois, sabia que não seria capaz de arrombar a porta sozinho. Corri pelas ruas, gritando por socorro, até que as pessoas viessem ao meu encontro. Com dificuldade, consegui persuadir alguns moradores a me ajudarem a derrubar a porta, porque já temia pelo pior.

            Ao retornar para a casa, o odor sortia entre o formol e a putrefação. A porta foi derrubada, mas entrei sozinho. Escadas me conduziram a um porão abafado e insuportavelmente malcheiroso. Uma cena perturbadora era iluminada por dezenas de velas. No entanto, não havia ninguém ali, eu estava completamente sozinho naquele recinto.

            Estantes repletas de frascos abomináveis guardavam pedaços humanos. Frascos contendo substâncias químicas desconhecidas e um bálsamo mal-acabado foram deixados em cima de uma grande mesa que servia como bancada para manipulação. Olhei ao redor, procurando por outra alma, mas constatei que, de fato, eu era o único ali.

            Uma folha de papel com a tinta ainda fresca estava estrategicamente posicionada para ser notada. Me aproximei dela, mas ao fazê-lo, percebi que estava pisando em uma poça com uma substância repulsiva derramada no chão, a qual era a origem de todo aquele odor. Ao ler o conteúdo da folha, fiquei horrorizado com o que estava escrito, pois, era direcionado a mim. Enfim me revelado o segredo, todas as pistas me voltaram a mente. Uma alma que contemplava um retrato, que, na verdade, era seu próprio reflexo. A pedra filosofal havia-lhe conferido uma permanência eterna, mas não lhe daria a carne perene. Seus últimos anos foram dedicados para se manter conservado, enquanto poderia procurar por Sophia. O pobre cadáver nunca a encontrou e permaneceu privado na escuridão até que o fim de sua mente chegasse. Ele já não pertencia mais à terra e para o pó jamais voltaria. A decomposição agora teria ascendido a uma nova propriedade antes jamais vista! Com os olhos assustados e cheios de terror, percebi que aquela poça no chão, era o que foi um dia Luke Hasselbalch!

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