
Etanólico, me perdi, distrai e chorei. Hoje ao caminhar por essas ruas na madrugada a fio, me vejo perseguido por sombras subconscientes, pois hoje, com você ausente, a vida me faz ébrio.
Por essas calçadas rachadas, o sapato gasta e os pés pedem descanso. Ao longe uma figura familiar chama atenção; uma silhueta sombria de quem algum dia foi, acenava. Desvio o olhar e corro em direção contrária, mas, no fundo, tenho medo de querer estar lá.
A falta de estrelas nesse céu noturno diz a mim que seu amor era uma estrela em combustão, que surgiu das trevas em polvorosa explosão, queimou meu coração até se apagar. As lembranças vinham ter-se comigo, e o vento sussurrando dizia:
“Fuja daquele olhar”
O frio tomou conta da minha espinha, espalhando e encontrando o ápice no cóccix e na nuca. Ao longe, na penumbra da viela, duas esferas azuis dirigiam-se a mim. Da arritmia ao caos, o alicerce da sanidade deteriorava-se, meu corpo tendia à ruína. As horas eram apenas horas, não tinha como contar. Correndo em vão, sem um rumo certo, eu tentava escapar de meu passado. A sombra estava lá, onde quer que eu fosse, esperando, sorrateira, pronta para o abate.
O mundo ao meu redor foi tingido em escalas de cinza. O negror profundo, semelhante a um buraco negro, tomava para si toda luz. Essa luz hoje me falta, você, meu farol à beira-mar, quem me guiava no meio da névoa, agora se foi. No momento presente as trevas me acariciam, afagam meu amor de maneira doentia, ao mesmo tempo que dilaceram minha alma, dor e agonia.
O mundo gira, centenas de quilômetros por hora, fico tonto, mas não caio. Sonho em um dia te ver, hoje ou amanhã, ou na próxima semana. A verdade é onírica, mas não quero acreditar. Paro no banco da praça, ou na calçada da esquina; às vezes no sol de manhã cedo, às vezes na sombra ao meio-dia. De dia, olhos humanos me julgam, à noite, sua sombra acusa.
É triste, mas o vento tem razão. É verdade, as sombras não são palpáveis, pouco tocáveis e por muitas vezes quiméricas. Entretanto, não seria o amor ideal, aquele que é irreal?
O amor de minha vida, aquilo que tanto ansiei. Os planos, as realizações, os sonhos, reais ou não. Todos acomodados, a depressão moderna. Não saem do papel, são somente uma figura. E aquele fantasma sempre vem consternar a minha alma. Alguém que sempre desejei, mas nunca existiu. Uma pessoa que sempre mato quando meu fígado termina seu trabalho. Sei que todos os dias sua vida termina. E toda vez que a última gota desaparece do meu sangue, eu vou até seu túmulo, te vejo lá no fundo sombra maldita, amada; e lá, te enterrando, também me enterro, com terra úmida das lágrimas que eu próprio chorei.

Nova Palmeira – PB
15 de Dezembro de 2020

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