As Notas de Jean Dimas

Capítulo 1

JJá faz algumas horas que vago na solidão dessas ruas decrépitas, onde casas em ruínas servem de abrigo para espíritos imundos. A caminhada costumeira, que outrora ajudava a expurgar o peso do dia sobrevivido, agora já não surtia efeito. Eu temia enxergar o que me cercava e, por isso, seguia cabisbaixo, mirando o chão. O desalento no olhar pousava sobre as ervas daninhas que cresciam por entre as pedras do calçamento, via o sereno escorrendo sobre elas e suas pequenas sombras dançando ao sabor do vento.

            As pessoas daquele lugar levavam suas vidas ao cárcere de suas casas. Apenas se via, em raras ocasiões, pequenas pérolas brilhantes que lançavam um vislumbre curioso para além de onde se restringiam. Ao que parecia, transitar por aquelas calçadas não se era feito a muito tempo.

            De vez em quando, eu devolvia os olhares que me eram furtivamente atirados. Com um sorriso e breve aceno de cabeça, eu tinha a esperança que um “bom dia” ou “boa tarde” fosse retribuído com uma mínima cordialidade. Nunca obtive resposta. Não sabia dizer se era falta de educação ou o puro receio de se dirigir a um forasteiro. Apenas, após a indiferença ou o silêncio, eu ajeitava minha boina, ajustava o casaco nos ombros e seguia meu caminho, repetindo esse ritual a cada nova manhã.

            O tempo escoava com tanta agilidade que, se aqueles breves passos pudessem me proporcionar algum prazer, a felicidade escorreria por entre os dedos antes que eu pudesse segurá-la. De súbito, ali estava eu, outra vez, diante da hospedaria onde me alojava.

            Contemplo seus umbrais e tenho a certeza que, em um passado glorioso, foram majestosos; os detalhes ali esculpidos com esmero já foram, em algum momento, a satisfação de um grande artista. Hoje, no entanto, suas paredes estão tomadas por uma mancha negra que escorre do topo até o chão, fundindo-se com à terra escura, alicerce da sua miséria. Não sei se uma edificação pode ter olheiras, mas aquelas marcas me pareciam lágrimas teimosas, que se recusavam a parar de verter.

            A porta aberta era o convite acolhedor para as pobres almas que ali residiam. Como o abraço de uma mãe, ela não podia resolver seus problemas, mas lhe daria refúgio quando necessário. Ao entrar no saguão, era impossível não notar os poucos jarros espalhados pelo ambiente — todos contendo plantas mortas, vítimas das tentativas fracassadas de cultivo. Nem mesmo o mandacaru, símbolo de resistência e vida, suportara o imenso decesso.

            Atrás do balcão, encontrava-se a senhoria amargurada. Um sorriso simpático disfarçava o desalento das coisas que lhe aconteceram em tempos passados. Retribuí seu amável “bom dia” no mesmo tom. Em seu rosto, sulcos profundos e marcas de expressão distintas, denunciavam que aquele arco do sorriso  poucas vezes — ou a muito tempo — mostrou-se em sua face.

            Uma moldura magnífica adornava uma tela que repousava atrás do balcão. Nela, a figura impecável de uma dama — um anjo — estava impressa. Melancolicamente traçado, a bela mulher lhe deixava cair um pranto que combinava com seu vestido azul-escuro. (Estúpido) aquele quadro parecia fazer parte do tormento impregnado naquele ambiente sujo, triste e exaustivo. Já estava farto de tantas descrições negativas.

            Deixei a senhora para trás e tomei meu caminho, subindo os degraus da escada. A cada passo, a madeira rangia em gemidos angustiantes. Deslizei a mão pelo corrimão, mas o frio tato da umidade repelia minha pele de seu toque. No topo, alcancei o corredor, o acesso aos inúmeros e silenciosos quartos. Segui até uma janela — uma suja, a outra quebrada. Naquele corredor, o silêncio reinava, o vento comandava e o frio obedecia.

            No fundo, a última porta guardava o antro do meu descanso. Lá dentro, sobre uma pequena mesa, repousavam os papéis de meu trabalho: alguns poemas mal escritos e desenhos inacabados. O prazo era curto. Nada daquilo me agradava.

            O suspiro era a única ventilação. Improdutivo, sentei-me à beira da cama, refletindo sobre as possibilidades. Quando a mente não iluminava, deitava-me, derrotado. Ali, despojado, fitava o teto, torcendo para que alguma boa ideia surgisse. No entanto, tal como meus papéis, minha imaginação permanecia em branco. Perguntei-me se aquela fuga me influenciaria positivamente. Mas, até então, a única resposta que obtive foi a paisagem sombria que enxerguei.

            — Qual é o meu problema? — perguntei a mim mesmo, em voz ligeiramente audível, como se acreditasse no milagre de que uma resposta, com mesmo tom, pudesse vir de algum lugar.

            Alheio a tudo, fiquei absorto em pensamentos até perder a noção do tempo. Até cair no sono. Infelizmente para mim, os sonhos não eram claros. A realidade onírica não trazia revelações nem novos horizontes a serem explorados. O imenso vácuo na cabeça sugava de mim todos os bons devaneios.

            Mais tarde, naquela madrugada, fui despertado por sons que vinham do lado de fora. Nunca tive problemas com ruídos, ao menos, nunca foram um incômodo. Sentado à beira do colchão, esfreguei os olhos e estendi o braço até o criado mudo em busca dos óculos. Agora, plenamente consciente, pude reparar melhor no que ouvia: a melodia abafada de um instrumento de corda.

            O som vinha de além do corredor. A preguiça causada pela escuridão ainda pesava sobre meu corpo. Levantar era, normalmente, um exercício de resistência. Mas à medida que a música prosseguia, tomava uma forma metafísica, causava um sentimento estranho e reconfortante. Aquelas notas pareciam mais aconchegantes que minha própria cama — embora isso não fosse um grande feito.

            Calcei as sandálias e caminhei até a porta. Ao girar a maçaneta levemente enferrujada, a madeira rangeu de forma estridente e o frio logo se convidou a entrar. Que ficasse com o quarto só para ele, pois eu sairia dali para descobrir a origem daquela melodia tão serena.

            Não me dei ao trabalho de trocar as roupas de dormir. Apenas segui em direção ao fim oposto do corredor, onde a música ecoava. A cada passo, parecia que a extensão do trajeto se alongava, como se eu adentrasse um território desconhecido. Bem no fundo, encontrei a porta do quarto quinze.

            Quase que de forma automática, fechei o punho, pronto para bater. Mas, antes de consumar o encontro das juntas falângicas com a madeira, a vergonha me deteve. Por que diabos eu bateria à porta de um estranho? Pensei em justificativas para invadir o quarto do desconhecido, mas todas soavam patéticas. Não fazia sentido falar em incômodo se, na verdade, eu queria era me entregar ao som daquele adorável instrumento.

            Bati, enfim, na porta. A resposta foi o silêncio abrupto da música.

            Sem hesitar, segurei a maçaneta e perguntei se podia entrar. Nenhuma palavra me retornou. O misto de desejo e curiosidade me preencheu — eu queria ser tomado pelo poder daquelas notas arcanas. Ignorando o temor do que encontraria ali dentro, fosse um anjo glorioso ou um demônio agourento, girei a maçaneta e penetrei o antro amedrontador.

            A escuridão era intensa. A pouca luz da lua que adentrava o corredor era engolida pelas trevas do quarto. No centro — ou ao menos, onde presumi que fosse o centro — havia um senhor de meia-idade, sentado em uma cadeira. Seus olhos pareciam tentar me fitar, como se buscassem descobrir que tipo de criatura eu era. As poucas formas visíveis estavam mal iluminadas pela tênue luz que manava do castiçal.

            “Quem é você que invade meu aposento? É alguma sombra ou uma alma vivente?” falou o velho, com a voz rouca e ligeiramente zangada.

            — Perdão pela intromissão, meu amigo. Apenas segui as melodias que escaparam por baixo de sua porta. Desculpe pela insolência.

            “Pois trate de ir embora, aqui não é lugar para um filho de Adão estar” disse ele, sem alterar o tom.

            — Sei que fui grosseiro, mas… não consigo dormir.

            “Não é possível. Não era para se ouvir nada do que acontece atrás desta porta!” Sua voz carregava incredulidade. Ele pensava mesmo que sua música passaria despercebida numa madrugada tão silenciosa?

            — Não vim trazer reclamações — rebati. — Vim apenas como um poeta. Tenha piedade e me agracie com essa composição celeste.

            “Não posso acreditar que alguém como você possa ter me ouvido.”

            — Mas eu estou aqui, não estou? Então, por favor, conceda-me esse descanso. Prometo não lhe atrapalhar.

            Eu pedia, quase implorava. O que havia escutado parecia ser o conforto que há tanto tempo procurava.

            Ele permaneceu me encarando, ainda descrente. Nada mais disse. Apenas inclinou o corpo para a esquerda e estendeu o braço para trás da cadeira. De lá, retirou um violino, que até então se camuflava nas sombras. Do chão, à sua direita, revelou-se um pequeno arco, que sua mão tomou da penumbra.

            “Não gosto de me prolongar em conversas que não levam a nada” respondeu ele, apático. “À sua direita, há uma escrivaninha, no canto do quarto. Pegue a cadeira que está lá. Use as velas para iluminar”.

            Sem questionar, fechei a porta atrás de mim e caminhei em sua direção. À sua frente, sobre um pequeno tamborete, repousava o castiçal. Ao tomar a iluminação em mãos, mergulhei no completo breu. Quis ser rápido e fui até a escrivaninha.

            Assim que peguei a cadeira, meus olhos percorreram rapidamente os poucos objetos ali dispostos: folhas de partituras, pena e nanquim. Algumas anotações — um diário, talvez — e uma moldura com uma fotografia que me pareceu estranhamente familiar. Somente depois constatei que a figura nela retratada lembrava a dama do quadro no saguão.

            A treva infinita me fez perder a noção do espaço. Girei em várias direções, buscando um ponto de referência que me guiasse de volta. Tateando as paredes, meus dedos encontraram uma cortina escarlate que as sombras haviam ocultado. O tecido era tão pesado que, ainda que houvesse uma janela aberta por trás, nenhum vendaval ousaria movê-lo. Era aquilo que impedia qualquer luz de penetrar naquele quarto.

            “Por que tanta demora? Por acaso se perdeu?” A voz do velho ecoou. Parecia distante.

            — Não foi nada. Desculpe.

            Agora que sua voz me servia de norte, retornei, carregando a cadeira em uma mão e o castiçal na outra. A luz amedrontava os demônios que espreitavam no meio da escuridão. Enquanto avançava, no que era possivel enxergar, reparei nas infiltrações e na umidade impregnadas. Aquele devia ser o pior aposento do prédio.

            Posicionei a cadeira diante do velho e recoloquei o castiçal em seu lugar. Meus olhos cravaram-se nele enquanto apoiava o violino na clavícula e o segurava firmemente com o queixo. Quando ergueu o arco e o aproximou das cordas, meu coração pulsou veloz, tomado pela expectativa da convergência daquele ato.

            A música, sem dúvida, lava a alma dos infelizes.

            O pulsar crescia. Minha comoção aumentava exponencialmente à medida que a canção tomava forma. Uma torrente de êxtase dos mais variados tipos me banhava. Das cordas do violino nasciam notas que jamais haviam tocado meus ouvidos. Era uma renovação, uma experiência inédita.

A melodia;

A harmonia;

O ritmo;

            Aquela música não pertencia a este mundo. Eu estava diante de algo que vinha de um lugar distante, desconhecido. Talvez até sobrenatural. Mas nada mais importava. Nunca senti tanta paz quanto naquele instante.

            Quão gloriosa canção Deus me permitiu ouvir!

Fim do Capítulo 1/3

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