A Noite é Sempre Mais Misteriosa

N. P.
14 de outubro de 19**
Certa vez, em retorno à minha cidade natal, na tarde de um domingo perdido, fui visitar um velho amigo. Ele residia a uma longa distância, e diferente de mim, parecia fugir da vida urbana e suas rotinas estressantes. Ir ao seu encontro se assemelhava a uma odisseia. O caminho tortuoso era intensificado pelo árido clima insuportavelmente quente, a umidade relativa — que eu podia chutar — deveria ser abaixo de zero.
Peguei meu carro e conduzi através de uma estrada de barro que há muito tempo não via. O calor nostálgico, revivido apenas na lembrança da mocidade, ainda me incomodava. Arrisquei deixar uma brisa entrar, mas junto a ela, a poeira em suspensão invadiu pela janela aberta. Tosses intermitentes tentavam seguir o ritmo da música que tocava no rádio. Tentei não me incomodar, isso era apenas um charme do interior.
O relógio marcou aproximadamente duas da tarde quando cheguei. A euforia com que fui recebido, era o reflexo do tempo que se passará desde a última vez que nos vimos. Caminhando em minha direção ele ria de minha aparência. Uma cortesia da estrada foi me dar cabelos e sobrancelhas em tons de caramelo. Mal nos abraçamos, e já começávamos a por em dia as conversas. Era uma necessidade desesperada para compensar o tempo ausente, e a cada lorota contada, uma dose de cachaça brejeira era virada goela adentro.
Quando se puxou fogo o suficiente — e a embriaguez bateu à porta —, a luz já havia esvaecido, tínhamos acendido as lâmpadas sem nem perceber. Quando retomamos a si, o relógio acusava uma hora avançada. Embora, fosse noite de lua cheia, sua luz não era suficiente para garantir a devida segurança ao transitar naquelas estradas rurais. Sair em meio àquela noite, com os faróis quebrados, era imprudência. Eu não poderia saber ao certo o que encontraria naquela solidão desoladora. Foi por esse motivo, que mesmo sem o costume, aceitei o convite de passar a noite lá.
Sua casa era grande, centenária pelo que me falou uma vez. Com cômodos exagerados em proporção. A básica mobília mal ocupava os espaços, deixando um vazio no lugar que era estranhamente sufocante. Era como uma claustrofobia às avessas. Através de um corredor que cortava a casa ao meio, ele me levou ao seu quarto de hóspedes.
A sua porta era de uma madeira nobre construída aos moldes antigos, irregular e sem acabamento. Mas, boa o suficiente para não sofrer com cupins. Pesada como era, foi necessário em pouco mais de força para abri-la. Seu rangido soou como um susto, igual animal acuado que sofreu um ataque predatório.
Cocei o ouvido e entrei no aposento. Lá dentro se mostrava um quarto comum. Uma cama de solteiro, um guarda-roupa, um oratório com uma assustadora e desconhecida figura religiosa — embora eu procurasse algo de divino naquela imagem —. Tudo era o esperado, exceto por um baú hipnótico recostado ao pé da parede.
— Rapaz, é um belo baú esse que você tem, M. — comentei.
M. visivelmente desconfiado, parecia surpreso com alguma coisa naquele quarto. Deduzi ser a presença do baú, lá. Poderia, apenas, em uma faxina passada, ter esquecido de mover aquele objeto para seu devido lugar. Mas, não era isso. Sua demora em me responder, deu lugar a uma análise atenciosa. Não tinha se esquecido de mim, mas parecia que primeiro, ele queria acreditar no que via, para depois, ter a certeza do que iria dizer.
Tentando esconder o estranho incômodo, arriscou me responder da forma mais natural que podia — eu sabia que você ia falar algo assim se o visse.
Eu sempre tive interesse por objetos antigos, era um passatempo. Gostava de imaginar quem os possuiu e por onde tinham passado. Se aquelas pessoas ainda eram vivas e o que tinham feito em suas vidas. Um historiador independente; Um colecionador das memórias que os objetos carregavam consigo. Uma maneira diferente de consumir a arte.
Ao deparar-me com o baú; uma curiosidade inexplicável me abateu.
O fascínio ia além de conhecer o que meus olhos enxergavam, isso não era o bastante, eu precisava desvendar os mistérios no íntimo de seu conteúdo.
— Ele pertenceu ao antigo dono da casa se quer saber — continuou, cauteloso.
Me aproximei para fazer uma análise, e fiquei fascinado com o entalhe minucioso.
— Mas, isso é uma obra de arte! Eu lembraria se o tivesse visto antes.
— É muito bonito mesmo, mas deveria estar guardado.
— Medo que eu o roube?
— Por mim, já tinha me desfeito disso — sua resposta foi séria.
— É fácil, dê ele pra mim então.
Abrindo um sorriso, ele balançou a cabeça em sentido de negação. Sorri de volta e caminhei até a cama, onde me sentei e retirei o calçado.
— Se for vendê-lo ao menos me faça por um preço justo.
Recostando o ombro na parede, ele ficou com o corpo levemente inclinado. Usava o apoio para economizar as forças — é, complicado major, é daquelas coisas que não se pode passar adiante — após o suspiro, miramos nosso olhar ao baú.
— Herança de família?
— Não, não tenho parentesco com esse dono que falei.
— E o que é, então?
— É do tipo de coisa que não se passa para outra pessoa.
Naquele momento eu já estava intrigado, ele sem querer tinha ganhando a minha atenção, e consequentemente provocado a minha insistência no assunto. Mas, talvez fosse o efeito do álcool.
— Qual o problema dele?
— Como é que posso explicar? — pensativo, media com cuidado a sua resposta — ele não deveria estar nesse quarto pra começo, nem na casa para falar a verdade.
— Ele fica do lado de fora? No sereno? — perguntei espantado.
— No armazém.
Apesar da curiosidade, nunca fui ao armazém. Quando éramos crianças, tínhamos medo daquele lugar. O armazém e o pé de tamarindo. Ambos continham marcas de incêndio, que lhe conferiam um ar perigoso.
— Só pode ser uma praga! É uma praga que tem nele, né isso?
Lancei a pergunta em tom de gracejo e ao retomar minha atenção a M. recebi um olhar sério e temeroso. Ele não gostava do rumo que tomávamos, e eu não levava com seriedade o seu incômodo, tornando talvez para ele, a minha visita, uma inconveniência.
— Você subestima essas coisas — suas palavras já continham uma mescla de raiva e nervosismo.
— É você, que é muito supersticioso.
— Eu já tinha me esquecido o quanto você podia ser besta — ele já parecia desenganado comigo, no fundo, eu estava envergonhado por ter desencadeado uma situação tão constrangedora. Apesar da banalidade do assunto — tenha cuidado com essas suas brincadeiras — sua resposta já tinha um tom de ameaça.
— Eu que brinco, mas é você quem guarda uma arca maldita em casa — o meu orgulho infantil não me permitiu segurar a língua. M. sempre foi um sujeito de paciência curta, não admitia perder o controle, por causa disso, sempre perdia. E aquela resposta sem maturidade, foi-lhe um golpe fatal, que lhe tirou do sério.
— Faz a merda que quiser então! Só não abra ele — respondeu impaciente.
Com o estranho clima instalado. Ele ficou um breve momento me olhando. Eu não sabia o que dizer. A única coisa que me veio, foi um — me desculpe — envergonhando. Ele também pediu desculpas.
— Estamos um pouco bêbados — comentou sorrindo — vamos, vou te arrumar outro quarto.
— Esse está bom.
— Eu insisto, vamos para outro quarto.
— Eu quero ficar aqui — lhe disse decididamente.
M. já queria perder a paciência novamente, mas parou, respirou, penso até, que fez algum tipo de meditação. Ele me pareceu verdadeiramente decepcionado.
Na tentativa de fazer as pazes, ofereci ajuda para devolver o baú ao armazém — não vou mexer nessa coisa a essa hora da noite! — a sua vã investida em me assustar era inútil, sei que era apenas uma pequena vingança para me perturbar, mas eu não lhe daria esse gostinho, e ele, já deveria saber, eu era imune as histórias de Trancoso. Na infância, sempre dormia em redes, e em ocasiões especiais, as armava nos velhos alpendres, para se banhar no vento e sereno noturno.
Com o fim da discussão, M. me desejou uma boa noite em um tom não muito amigável, e seguiu para seu aposento. A última coisa que ouvi, foi o ressoar das trancas de seu quarto que viajaram através do corredor. Depois disso, até os grilos que costumavam fazer sua serenata noturna, cessaram seu ruído misteriosamente naquela noite.
A espectral luz da lâmpada conferia ao quarto um amarelado ligeiramente hostil, como um pôr do sol que deveria ser esquecido. Agora, com a solitude alcançada, eu poderia aproveitar a fantasmagórica estadia daquele lugar.
Devo confessar, assombrações e coisas do gênero sempre me fascinaram. Os causos que me contavam as avós, me marcaram profundamente, alimentaram meu interesse pelo passado e suas histórias perdidas.
Para mim, o maior tesouro, era aquilo que sobrevivia apenas na nossa findável memória. Que por ser findável, era preciosa.
Cansado da viagem, fui deitar. Senti um arrepio na espinha, uma culpa indescritível. Algo estava errado. A discussão com meu amigo, tinha mais o intuito de provocá-lo, longe de ser maldade, era para no máximo, me dar uma oportunidade para aumentar minha coleção. Mas, não era isso que me causava incômodo. Meu interesse no baú não era nada anormal, no entanto, em meu interior, senti um chamado irresistível; um convite impossível de recusar.
Já se passava da 13º hora, eu não consegui manter os olhos fechados por muito tempo. Levantei da cama e sondei o baú. Sem conseguir me conter, caminhei em sua direção. Embora houvesse apenas uns quatro metros de distância entre nós, parecia, na realidade, que eram quilômetros nos separando. A cada passo dado a seu encontro, eu sentia me afastar do mundo que conhecia, e acima de tudo, da proteção divina da luz de Deus.
Cheguei, perigosamente, perto do baú, e comecei a examiná-lo. A penumbra parecia realçar ainda mais sua beleza, uma beleza nefasta. Um desejo profundo tomou conta de mim. Eu queria abrir aquela tampa e desvendar as confissões ali enterradas.
Com cuidado, deslizei a ponta dos dedos sobre sua superfície fria. Apreciava sua textura lisa, o aroma de madeira nobre que exalava. Uma carícia bizarra, uma experiência que nunca imaginei ter. Como prestes a corromper a pureza de uma virgem, me comportava de maneira vulgar ao tratar daquele objeto. Meu coração estava acelerado. Uma inexplicável taquicardia me acometeu.
Respirei profundamente. Como se prestes a cometer um crime, fechei os olhos para de súbito, forçar a tampa. Tamanha foi a decepção. Percebi que um elegante e maldoso cadeado aprisionava o conteúdo do baú. Estava tão extasiado, que acabei distraído, ignorei uma especificidade tão óbvia. Restou-me, então, apenas analisar a obra, desconhecendo o seu oculto.
As bordas detalhadas no bronze, tinham um brilho próprio, se destacando da madeira escura usada na sua construção. Sem nenhuma fresta entre as tábuas, era difícil imaginar o poderia estar dentro da arca. A sua tranca, meu atual algoz, era outra característica ímpar; feita também em bronze, continha detalhes florais entalhados, flores comuns ,porém, belas em sua simplicidade — que é onde mora a verdadeira beleza. Apenas fiquei observando por um momento, incapaz de avançar além disso. Enfim, derrotado pela impossibilidade, voltei para cama.

Apesar do cobertor de algodão vermelho, o frio noturno me molestava com carícias sinistras. Contudo, ele não foi responsável por roubar meu sono. Havia algo mais naquele quarto, e isso me manteve em alerta. A curiosidade retornou acompanhada do medo; mais tarde, se somaria a sensação de estar sendo observado. Tentar dormir se mostrou um fracasso, com essa fragilidade exposta, um magnetismo cruel levou meus olhos de volta ao baú (palavra maldita).
Costumava a deitar de lado, nesse contexto eu estava dando às costas ao baú, com os olhos voltados à parede. Mas, aos poucos, meu olhar trilhava um caminho perigoso. Inicialmente, virei-me ficando de papo para cima, encarando o teto, que de tão alto parecia ter um céu próprio. Ainda ouvindo aquele chamado, fiz o movimento que definiria meu estado espiritual dos próximos anos.
Virei-me devagar para espiar sorrateiramente.
Virei-me devagar para matar minha curiosidade, ciente de que isso seria fatal.
Virei-me devagar para enfrentar meu infortúnio noturno.
Eu me virei.
E estava certo, havia um outro indivíduo ali, se é que aquilo poderia ser chamado de pessoa.
Feito da penumbra da noite, dos sonhos mais soturnos e traiçoeiros, da emboscada mais perversa, sim, três vezes o mal, ali em carne ou sombra, espreitava, sentado no topo do baú, levemente inclinado e pensativo.
Diante de sua presença, sentia como se minha essência fosse lentamente corroída, e ali, eu era consumido de corpo e alma.
Nada falou, mas me foi suficiente. O encarei e esperei ele fazer o menor dos movimentos. A maioria das pessoas estaria em completo desespero, mas eu não, não naquele momento. Eu saboreava cada segundo daquele que seria meu momento mais sombrio. Por fora, tremia, sem saber se era de frio ou medo. Eu o encarava, e por Deus, eu desejava uma retribuição do seu olhar.
Sem demora, o meu desejo foi realizado. Como se pudesse ler meus pensamentos — talvez conseguisse mesmo —, ele me encarou de volta. Uma fisionomia atroz, completamente antinatural, que causava repulsa só em existir. Dubiamente, seus olhos eram de uma beleza assustadoramente cativante, um azul penetrante. De um brilho vítreo, quase um trabalho divino. Era Deus e o Diabo em um único ser.
Trocamos olhares até que ele desviou o seu, voltando-se para a janela. Seu braço magro se ergueu e, com um dedo fino e disforme, apontou para ela. Então, voltou-se para mim e abriu um sorriso maléfico. Seus caninos afiados e brancos, se destacaram na escuridão. Tal visão ameaçadora quase fez meu coração parar.
Pude dizer que foi isso mesmo que me ocorreu.
Porque não havia nenhuma recordação do veio a seguir.
Ψ Ψ Ψ Ψ Ψ
A noite se foi, mas sem levar consigo a experiência da madrugada. Meu rosto devia estar abatido. M. me perguntou se dormi bem, e lhe respondi com um simples aceno de cabeça. Durante o café da manhã retomei o assunto do baú.
— M. o que você sabe sobre a origem do baú?
Ele calmamente devolveu a xícara de café à mesa, antes mesmo de leva-la a boca.
— Ele pertenceu a alguém envolvido com coisas sem explicação, perversidades que uma mente doente duvidaria — me respondeu com calma.
— E por que não se livrou dele?
— Há coisas que ainda não compreendo. Não se livrar desse baú também é um desses fatos — sua expressão era pensativa enquanto falava. Então, ele olhou diretamente para mim e perguntou — você quer ver o que tem dentro?
Tomei em mãos uma pequena faca, lambuzada de manteiga para passar na fatia de pão.
— Não, não precisa, eu tô com pressa para voltar.
Recusando a oferta, ele ficou surpreso, mas também provoquei nele, um sentimento de premonição. Depois daquilo, não houve mais conversas. Dei-lhe um abraço, despedi-me e segui meu caminho.
Enquanto me afastava pela estrada, olhei pelo retrovisor a casa ao longe. Parei o carro e desci. De onde estava, vi a janela onde a criatura queira que eu focasse a atenção. Talvez eu nunca saiba o conteúdo do baú, ou compreender o aviso da criatura, ou ainda ver o que ela queria me mostrar. Se era na janela, ou se era na longa e morta campina além dela. Uma coisa, porém, eu tinha certeza: nunca mais visitaria meu amigo M. novamente.

Nova Palmeira – PB
28 de Setembro de 2015

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