
Capítulo 2
O Enfado dos Dias
Já fazia alguns dias que eu visitava o senhor violinista de nome Jean Dimas.
Pouco avancei em meus trabalhos — vez por outra me pegava cochilando, desperdiçando o tempo que já não possuía. Por isso, todas as noites, assim que o sol se deitava no horizonte, eu passava a fazer companhia a Dimas. Se antes as madrugadas eram perdidas, agora eu encontrava nelas uma razão: ter alguém com quem conversar. Era essa a justificativa que alimentava minha insônia.
Sempre que ia ao seu quarto, levava comigo uma garrafa de café e alguns pães. Às vezes, aguardente e tira-gosto compunham o cardápio de ocasiões julgadas especiais. Cortês, ele agora me convidava a entrar; aos poucos, acostumava-se com minha presença.
Eu mesmo já me habituara à escuridão daquele quarto. Em certos momentos, eu dispensava o auxílio de qualquer luz. Apenas com a memória, reconhecia grande parte da extensão do lugar e conseguia transitar sem maiores dificuldades.
Nossa rotina era simples: fazíamos uma pequena refeição, proseávamos, ríamos de algumas bobagens, reclamávamos de outras tantas… e, por fim, seguíamos para o concerto noturno de um homem só. Somente após uma partitura vigorosa é que nos sentíamos prontos para suportar a ideia de que um novo dia logo chegaria.
Nunca tive aptidão alguma com instrumentos, mas sempre admirei quem possuía esse dom. Ao cantor, amava seu canto e, por não ser abençoado com uma boa voz, ficava apenas admirando. Do mesmo modo, julgava que a música feita por minhas próprias mãos era uma realidade distante — embora nesse caso, eu nunca tivesse me empenhado verdadeiramente para torná-la realidade.
Embora minhas visitas já tivessem se tornado praticamente um hábito, e o violino de Dimas me revelasse algo profundo na sua alma, eu ainda não o conhecia de verdade. Apenas sabia que tocava violino — e isso já me era bastante óbvio. Em nossas conversas, jamais falávamos sobre ele. No começo, não quis ser mais intrometido do que já havia sido. Mas, em meu íntimo, acreditava que já devíamos ser amigos. Ao menos, eu gostava de pensar assim.
Aos poucos, eu tentava induzi-lo a me contar um pouco de sua história. A minha, ele já estava cansado de ouvir. Suas reclamações não eram sobre a vida, mas sobre pequenas banalidades. Após diversas tentativas frustradas, perdi a paciência e fui direto ao ponto, perguntando-lhe sobre sua origem.
Surpreendentemente, foi franco e não recorreu a eufemismos. Contou-me que sua cidade natal não era a mesma em que vivíamos. Sua terra de origem, segundo disse, já não possuía nome próprio. Hoje era conhecida apenas por um código curioso, que soava tanto misterioso quanto cômico: Lugar Nenhum.
Houve ali um desastre, uma tragédia de proporções cataclísmicas. O que antes era uma terra fértil, transformara-se em um pedaço estéril de chão. Dimas sobrevivera à catástrofe, sendo um dos poucos a escapar. Quando comentou que a aparência atual daquele lugar estava em condições ainda piores do que as que vivíamos aqui, fiquei aterrorizado, pois acredite, isso era realmente preocupante.
O velho Dimas sofria sérios problemas de saúde e, por isso, passava a maior parte do dia dormindo. Nunca o vi fumar, mas o odor de nicotina impregnado em suas roupas denunciava o vício. Sua dificuldade em respirar não sufocava apenas a si, mas também aqueles que testemunhavam suas crises — era angustiante não poder fazer nada. Eu me perguntava como ele conseguira sobreviver sozinho até então.
Sentia pena e compaixão por ele. Por que se reclusar daquela forma? Sobre familiares, nada me revelava. Recusava-se a falar do assunto. Suspeitei que nunca tivera filhos; ou, se os tivera, talvez estivessem mortos. Essa suspeita nascia do olhar vago e fúnebre refletido em suas retinas. Não parecia abandono, mas perda — uma perda imensa. Talvez a tragédia a que se referia não fosse apenas a do lugar, mas também a de sua própria vida.
Perguntei-lhe se o antigo dono do quadro no saguão era ele, pois notei a semelhança entre a fotografia sobre a escrivaninha e a moça retratada na pintura. Para minha surpresa, eu estava certo. Ele confirmou. Disse que a obra fora uma moeda de troca pela estadia naquele lugar.
— Mulher? — arrisquei.
“Não. Filha.”
Não havia nenhuma relação entre ele e a dona da pensão; simplesmente encontrara ali um teto sob o qual se abrigar.
No fundo de seus olhos, percebia-se uma cintilação triste — uma dor disfarçada sob o sorriso desconfiado que teimava em exibir. Mesmo que a paisagem ao redor gritasse ruína, ele ainda me parecia alguém que buscava, de algum modo, uma réstia de felicidade.
Era possível que ainda carregasse o medo de se apegar a alguém para depois perdê-lo. Por isso, entendi algumas de suas atitudes mais ríspidas comigo: ambos sabíamos que minha estadia seria temporária, e ele tentava evitar qualquer laço que pudesse doer. Ainda assim, eu era o único a visitá-lo. Pouco a pouco, começamos a nos entender — mas o tempo corria, e eu partiria em breve.
A carência da idade, somada ao peso da solidão, corrói até mesmo o mais forte dos homens. Nada é mais desesperador do que o abandono absoluto; é por isso que o medo da morte é tão pungente, pois, no fim, todos descem sozinhos ao caixão, condenados a permanecer presos debaixo da terra. Para sempre.
Era evidente que ele já me via como filho — e justamente por isso temia. Temia perder um filho pela segunda vez. A princípio, essa ideia parecia apenas uma teoria minha. Mas a convivência, dia após dia, só servia para confirmar.
Compadeci daquela criatura — e temi por ela. Talvez aquele sentimento dissesse tanto de mim quanto dele, pois, em seu semblante, vi refletido o meu próprio ser. A possibilidade de definhar daquela maneira nunca me parecera tão palpável; apavorei-me ao imaginar que contemplava, no corpo daquele velho, o prenúncio do meu futuro.
“A música do violino é a única coisa que me conforta”, disse Dimas. “E, claro, o mundo que enxergo além da janela. Mas, sobretudo, prefiro a noite.”
— Por que a noite? Há algo de especial?
“Porque é escura.”
— Apenas isso? Soa triste. Você não foi claro.
“Quem disse que a noite pertence apenas aos tristes?”, retrucou com firmeza. “A noite me inspira fervorosamente! Principalmente em seu início, no pôr do sol.”
Confesso que eu não compreendia inteiramente as filosofias do velho Dimas. Mas, como uma criança diante de um enigma, aguardava suas explicações. Afinal, ele havia vivido muito mais que eu. E todo aprendizado — mesmo que insano — me era bem-vindo. Um poeta deve saber ouvir, antes de transformar em palavras o que lhe acrescenta.
“Diferente do dia, que já nasce pintado, a noite pode ser criada conforme o meu querer”, continuou após um suspiro. “É uma tela negra, e a tinta branca está livre para dar forma ao que me vem à cabeça.”
Fiquei em silêncio. Tentei traduzir em imagens o que ele acabara de dizer. Após um breve intervalo, voltou a romper a quietude:
“Que horas são, meu rapaz?”
Olhei o relógio. — São seis… perdão, cinco para as dez.
“Hora perfeita! Venha comigo.”
Ergueu-se da cadeira com esforço, pediu que eu pegasse o castiçal e o acompanhasse. Seguimos até as cortinas escarlates, diante das quais ele hesitou, tentando afastá-las.
“Poderia abri-las para mim?”, pediu, estendendo a mão para receber o castiçal.
Afastei o pesado tecido e, revelei uma janela voltada para além da cidade. O olhar alcançava as últimas ruas e, ao longe, um cenário desolado. Uma natureza morta.
“Abra a janela, por favor.”
Girei o trinco gasto e, com algum esforço, consegui abrir a janela. O vento entrou de súbito, levando consigo, as chamas das velas — talvez as únicas fontes de calor daquele aposento, pois eu podia jurar que nossos corpos jaziam frios, quase cadavéricos.
— As velas se apagaram.
“Não precisaremos delas”, respondeu Dimas, impassível.
Lá fora, os postes estavam, em sua maioria, apagados, deixando becos e esquinas mergulhados em sombras propícias a salteadores. Um odor acre de esgoto e putrefação pairava pelo ar.
— Não vejo nada de especial — murmurei.
“Isso porque você não quer ver nada de especial.” A repreensão soou como a de um artista diante de outro. “Muito do que precisamos está lá fora; basta querer enxergar. Não fique reclamando com os braços cruzados. Agora… olhe para cima.”
Levantei o rosto — e ele tinha razão.
O céu estava divinamente estrelado. Milhares de pontos luminosos furavam o manto negro que nos cobria. A ausência de luz artificial naquele pedaço da cidade permitia uma visão rara, quase esquecida, da verdadeira noite. Não sei se era ignorância minha, mas havia tempos que não contemplava algo assim.
— É lindo! — exclamei, tomado de espanto com tamanha beleza.
“Vê?”, disse Dimas, com um sorriso enigmático. “Na maioria das vezes, nos isolamos em uma confortável ilusão, para eludir a vida, fingir que o mundo não nos chama para a realidade. Eu e você. Mas a vida, rapaz, é suportar; e quem disse que seria diferente?”
— Por que está me dizendo isso?
“Porque você só insiste em enxergar o que há de ruim”, ele fez uma pausa, como quem escolhe as palavras com cautela. “Não digo que esteja errado… ou que não deva olhar. Mas não se deixe abater. Não se torne refém das circunstâncias. Nas noites mais escuras, as estrelas brilham mais forte!”
— E o que eu deveria fazer?
“Aceite o problema! Aceite o seu problema! Porque assim ele se torna um pouco menor… e você mais situado, entende? Veja o que há além de se enxergar!”
— Acho que você tem razão.
Com o indicador apontando para fora da janela, ele prosseguiu:
“Olhe só, veja com atenção… ali fora, consegue enxergar?”
— O que exatamente?
“No céu! É de lá de cima que tiro as notas da minha partitura.”
— Do céu?
“Sim! Mas não do que a maioria conhece.”
— Você fala… — Tentei concluir, mas fui interrompido.
“Sim. Do terceiro céu. Talvez, com um pouco de sorte, ele venha me buscar.”
— Ele quem?
Ele não respondeu. Um calafrio percorreu minha espinha e preferi não insistir.
— Obrigado, Dimas… pela conversa.
“Vamos beber alguma coisa?”, indagou, encerrando aquela prosa com um sorriso cansado.
— Cachaça?
“Perfeito.”
Deixamos uma fresta da janela entreaberta, o suficiente para não apagar as velas novamente. Conversamos mais um pouco. Antes de me retirar, vi-o curvado sobre a escrivaninha, recolhendo algumas folhas em branco para esboçar uma nova partitura. A súbita animação em seus olhos era inconfundível: ali estava um homem que ainda carregava fogo dentro de si — algo que apenas eu sentia quando estava amando meu trabalho. Não! Vivendo minha arte!
Rezei para que, um dia, encontrasse algo que me inspirasse tanto quanto as estrelas inspiravam Jean Dimas. Afinal, era justo que uma música tão divina nascesse exatamente do céu. Era a inspiração do universo, e somente o mais sensível dos artistas poderia percebê-la. Desejei, com fervor, possuir a mesma habilidade. Que minha próxima obra fosse inesquecível. Que a revelação que poucos conhecem chegasse até mim, e que a valsa das palavras escorresse da minha boca, caindo em cascata sobre o papel.

Fim do Capítulo 2/3

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